
- Mas então... você vem sempre por aqui? - Luciano sentou no tronco velho que estava caindo aos pedaços, enquanto acendia um cigarro.
Júlia riu baixo. Aquele era o tipo de cantada mais barata e comum que ela já ouvira; porém ela se sentiu confortável com aquele estranho.
- Não, só quando estou triste. - Ela disse, enquanto brincava com seus enfeitados cabelos cacheados.
Júlia era viva. Todos são vivos, mas Júlia era intensa. Gostava de viver a vida mesmo, desde escalar uma montanha perigosíssima até ir para fora da cidade, apenas para olhá-la do alto. E era o que estava fazendo agora. Ficava encantada com as luzes piscantes, as musicas que dançavam e os barulhos tão alheios que não pareciam pertencer a sua realidade. Sentia-se bem assim, como se não pertencesse aquele mundo. E de certa forma não pertencia, porque ela não tinha a cabeça de ficar parada em algum lugar só. Júlia era do mundo. Quebrava vários corações por onde quer que passasse, mas ela realmente não se importava. Não até agora. Não até encontrar o doce e amável Carlos. Carlos era tão perfeito, ao seu ponto de vista, que ela ficava aparvalhada. Ele era o seu oposto. Caseiro, romântico e tradicional. Júlia não entendeu como aconteceu, mas quando olhou em volta, já estava casada e já tinha uma casa própria com aquele homem. E era feliz. De uma certa forma estranha e banal, Júlia sentiu um dos pedaços vazios do seu coração ser preenchido por Carlos. Ela, que nunca havia ficado em um só lugar, agora vivia dentro do coração de um homem. Mas não lamentava ou choramingava, Júlia se sentia a pessoa mais feliz do mundo. O problema é que Júlia esqueceu que o nosso mundo é governado pela "Lei do Retorno".
- Está triste? Por que? - Luciano perguntou enquanto soltava levemente a fumaça de cigarro no ar.
Júlia o observou e suspirou. Nem sabia por onde começar. Talvez por quando descobriu que Carlos tinha uma amante. Ou quem sabe começar a contar como sua vida virou de cabeça pra baixo, quando o príncipe virou um sapo? E por que contar sobre a sua vida íntima para um estranho que fumava um cigarro vagabundo e usava cantadas baratas? Ela também não sabia responder.
- Briguei com meu marido. - Ela falou simplesmente, pegando também dentro de sua bolsa um cigarro. Não um vagabundo qualquer igual ao de seu companheiro de tronco, e sim um cigarro importado, direto da Itália.
- Brigou com ele? Por que?
Ela revirou os olhos e baixou a cabeça, suspendendo o cigarro no ar.
- Podemos compará-lo a carrocinha. - Ela finalmente respondeu, enquanto levantava a cabeça.
- A carrocinha? - Luciano riu, logo se engasgando com a fumaça que havia ficado presa em sua garganta.
- Sim, a carrocinha. - Júlia respondeu séria. - E vamos me comparar a um cachorro arteiro, aquele tipo que revira as latas de lixo e gosta mesmo é de uma boa súcia.
- Não estou entendendo. - Luciano jogou seu cigarro no chão, logo o amassando com sua bota de couro.
- Como o homem da carrocinha tenta capturar o cachorro? Ele vai devagar, chama com carinho e com amor. Às vezes até oferece comida. Um cachorro esperto e malandro normalmente não cai em uma dessa, acha estranho já que nada na sua vida foi assim, dado de bandeja. Porém o cachorro começa a ceder. Devagar, desconfiado, mas vai cedendo. Até chegar tão perto dele, abanando o rabo e lambendo a sua mão. O homem da carrocinha lhe dará um último sorriso e o capturará - O prendendo para sempre.
- Nossa que... Triste. - Luciano comentou enquanto acendia outro cigarro.
- Porém - Júlia continuou - O cachorro um dia pode tentar fugir e até pode conseguir, mas sua vida nunca mais será a mesma. O lixo não terá mais o mesmo gosto. Ele tentará novas aventuras, mas não terão a mesma descarga de adrenalina no sangue como antes. E tudo culpa daquele maldito homem da carrocinha, que o seduziu. Cachorro idiota e estúpido. - Júlia xingou, enquanto tentava conter as lágrimas.
Júlia sabia que aquele estranho e anônimo homem nunca a entenderia. Ninguém nunca a entenderia. Nem ela se entendia. Não conseguia acreditar que havia sido enganada de uma forma tão suja. A separação já havia sido pedida e ela pensava em voltar ao mundo - Mas não dava mais tempo. Carlos entrara em sua vida apenas para bagunçá-la e depois cair fora. De novo, Júlia estava sozinha.
Mas, pelo menos, ela ainda tinha uma bela vista da cidade.