Planos futuros
Há 9 anos
"Puxo a caneta e o caderno e sinto as palavras fluindo, as idéias chegando, lembro dos sonhos que tive, volto nas palavras chaves que anotei. Logo a folha está cheia, o meu celular joga música em meus ouvidos, como se fosse apenas o barco que me leva além. Tudo a minha volta some e estou com os pés literalmente na fantasia.
Posso ver todos eles como se estivesse, num plano maior, vozes e sussurros. Eles passam por mim que pareço vê-lo em planos diferentes. Basta escolher quem seguir e assistir. (...)
"A primeira vez em que fui à casa dela – casa mesmo, não apê – ela apareceu na porta, fez sinal para eu esperar e desapareceu lá dentro. Será que eu havia chegado em má hora? Ué, mas havíamos combinado. Então ela voltou e disse:
– Desculpe, eu estava prendendo o cachorro.
Falei que poderia deixá-lo solto, eu não tinha medo. Ela me conduziu até os fundos da casa e foi então que vi a fera. Gelei.
– Ele parece ter ódio do mundo – comentei.
– E tem – ela confirmou.
Disse também que ela estava respondendo a um processo por um ataque do cão a um vizinho.
– O que o moço fez para merecer?
– Olhou pro bicho de um jeito que ele não gostou. Quer mesmo que eu o solte?
Voltamos para a sala e tentamos conversar enquanto aquele anjo, nos fundos da casa, latia sem cansaço. Um monstro que se magoa quando lhe olham feio. Antes de ir embora, fui explicitamente irônica:
– Por que não um poodle?.
Isso tudo foi em São Paulo, e nossa amizade persistiu graças a e-mails e telefonemas, mas depois de uns anos voltamos a nos encontrar, dessa vez em Porto Alegre, onde ela estava morando. Mais uma vez, fui visitá-la em sua casa – casa mesmo, não apê – e ela demorou para abrir a porta. De novo. Foi prender o cachorro, pensei.
Quando ela apareceu abotoando a blusa, percebi que o atraso não se devia a nenhum cachorro. Mas era. Ela pediu para eu entrar e me apresentou ao seu novo namorado.
Parecia um animal. Rosnava. Tinha o aspecto de um homem com ódio do mundo, e nem perguntei a fim de confirmar. Ele apertou minha mão, dizendo oi e adeus ao mesmo tempo, pois tinha algo a fazer na rua. Soltou um comentário grosseiro para minha amiga e saiu pela porta. Tive vontade de perguntar para ela:
– Algum vizinho já está te processando?
Porém, mesmo sem perguntar nada, ela acabou me contando. Era um homem selvagem, de fato. Bruto. Rude. E tinha ódio do mundo – claro. Não sabia conversar, mas era expert em latir. Por que não me surpreendi?
Ela continuou: ele não a acompanhava em eventos sociais, e quando saía, arranjava briga com qualquer um que ousasse olhar feio pra ele.
– E quem olhava feio pra ele? – tive curiosidade em saber.
– Qualquer pessoa que tivesse ousado nascer.
Ele preferia ficar sozinho com ela, pois detestava seus amigos e não confiava em ninguém que se aproximasse.
– Você o prende nos fundos da casa?.
– Metaforicamente, é como se eu o prendesse.
A pergunta final seria óbvia:
– Por que não um poodle?
Mas não perguntei. Eu sabia que um poodle não lhe daria aquele rosto satisfeito que testemunhei, quando ela surgiu na porta da casa abotoando a blusa."


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