quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Praia - 1




Os soluços de seu choro eram abafados pelo quebrar violento das ondas douradas que, sempre que vinham em direção a praia e batiam com força na areia mole, rugiam como feras enfurecidas, querendo marcar território. Alguns respingos daquele mesmo mar violento vinham simpáticos, quase consoladores e acariciavam o rosto e corpo da menina que chorava copiosamente. A brisa marítima vinha salgada e fresca, fazendo os cabelos dançarem desordenadamente no ar. O sol estava se pondo e ela observava aquela bola de fogo brilhante em um tom alaranjado sumir por detrás do mar aos poucos. O céu estava com uma tonalidade rosa e azul claro, dando a impressão de que estava dentro de um sonho infantil e que poderia ver unicórnios voando por ali a qualquer momento. Sorriu. Aquela não era a hora mais apropriada para ir a praia mas e dai? Também não estava de biquini, era como se não fizesse parte mesmo daquele cenário. Quando sentiu os olhos esquentarem e os cilios pinicarem pela primeira vez naquele dia, percebeu que não queria ficar em casa. Não com eles, não depois da grosseiria horrivel que tivera que ouvir. Sua primeira reação fora subir as escadas correndo, se livrar do inocente pijama rosa de ursinhos e vestir uma blusa sem mangas verde-limão, uma bermuda jeans apertada, uma sapatilha vermelha e uma bandana na cabeça desta mesma cor. Havia olhado para o celular, olhado de novo e, no final, decidira deixá-lo em casa. Não queria ser encontrada, queria ficar sozinha e longe de qualquer um. Só precisava ir para um lugar onde poderia chorar alto a vontade e ninguém viria se desculpar por pena. Aquele fora doera mais do que qualquer outro que já havia tomado desde que começaram a namorar, jamais imaginara que sentiria o coração estilhaçado daquela maneira depois de ouvir o que ouviu. Limpou as lágrimas com o peito dos dedos, engolindo soluços. Não sabia como voltaria para casa, logo escureceria e ficaria perigoso, mas ela não sabia nem como levantar, suas pernas não obedeciam. Só de tentar colocar alguma força nelas, elas tremiam como gelatina e faziam seu quadril voltar para a areia. Suspirou pesadamente. É, talvez seja bom eu ser morta e estuprada aqui de noite mesmo, talvez assim ele fique arrependido, pensou a menina, entre um suspiro e outro. O fato é que ela não queria que ele ficasse arrependido porque ela morrera, mas sim por ter agido como um idiota insensível.



Continuar depois. (E revisar depois, também)

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